A Tecnologia não é neutra
A primeira mesa do Seminário “Além das Redes de Colaboração” em Porto Alegre trará o tema “Politizando as Tecnologias: como as redes reconfiguram a sociedade, a educação e a cultura?”. Será um questionamento as transformações da sociedade pós-industrial, onde novos elementos convergem determinâncias no campo da identidade, da comunicação, da educação, da cultura. Um questionamento também a este período onde a centralização e a monopolização adquirem novas formas e novos patamares: códigos, fórmulas, dados, idéias…
Esta sociedade, também categorizada como “sociedade da informação”, experimenta a instantaneidade e o impacto da midiatização, da velocidade em que as iniciativas podem tomar o globo, e da efemeridade que elas podem levar consigo. Nesse sentido é que o debate sobre as novas tecnologias tem um papel fundamental, afinal, por trás de todo o aparato técnico, das linguagens, das plataformas técnicas, há uma ideologia, uma visão de mundo.
Após a década de 80, a revolução da microinformática impulsionou outra revolução, a da comunicação. A internet permitiu que milhares de pontos espalhados no mundo possam se encontrar com a mesma facilidade que se escolhe um canal no televisor. Assim, os softwares, os protocolos de rede, as interfaces adquiriram uma especificidade intrínseca.
A Sociedade em Rede, definida pelo sociólogo Manuel Castells se configurou a partir da década de 60, oriunda dos campus universitários norte-americanos na formatação da internet, mas só tomou forma na medida em que se pode materializar a perspectiva da troca horizontal, do compartilhamento entre pares na rede.
Mas um campo árduo de disputa se estabelece na medida que grandes monopólios do conhecimento tentam capturar esta nova esfera colaborativa. Corporações de software proprietário patenteiam idéias, na forma de códigos de programação. Gerenciadores de direitos digitais (DRM) determinam a forma como as pessoas acessam os conteúdos. A pedagogia estabelecida privilegia a competição em detrimento do compartilhamento.
É esta a pauta que vai povoar as discussões no dia 15, no Salão Nobre da Faculdade de Direito na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Uma tentativa de elucidar a falsa neutralidade técnica, evidenciar a ética hacker na construção do cyberespaço, enfim, politizar as novas tecnologias.
Para isso, fará parte dos debates Imre Simon, professor do Departamento de Ciência da Computação do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo. Segundo ele “estamos vivendo uma transição onde as práticas industriais da Economia da Informação têm que se adaptar para uma convivência com as práticas emergentes de uma Economia Interconectada da Informação. Esta transição, liderada pelo Movimento de Software Livre, está afetando algumas das mais salientes práticas do mundo capitalista. Um conceito central para a força das novas práticas produtivas é a pujança de um conceito que apareceu muito pouco até recentemente: grandes quantidades de informação depositadas em commons de onde podem ser retiradas ou onde podem ser reinseridas, após modificações, de uma forma não rival e com regras abertas, acessíveis e transparentes para todos os interessados.”
Também estará presente Nelson Pretto, Físico, Mestre em Educação e Doutor em Ciências da Comunicação e um dos curadores do projeto. É professor adjunto da Universidade Federal da Bahia, consultor ad hoc de diversas revistas e instituições entre os quais a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia, Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, do Centro de Estudos em Educação e Sociedade e da Associação Nacional de Pós Graduação e Pesquisa em Educação.
Outro debatedor será Alex Primo, professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da UFRGS. Possui mestrado em Jornalismo (Ball University) e doutorado em Informática na Educação (UFRGS). Sua tese de doutorado foi premiada pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) e pela Sociedade Brasileira de Infomática na Educação (SBIE). Foi secretário da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação - Compós (2005-2007) e editor dos periódicos e-compós e Intexto. Publicou o livro “Interação Mediada por Computador: comunicação, cibercultura, cognição”. Atualmente pesquisa escrita colaborativa de hipertextos e conversações online. Coordena o Laboratório de Interação Mediada por Computador (LIMC): http://www.ufrgs.br/limc
Completando a mesa, Giba Assis Brasil, também um dos curadores do projeto, discutindo o trabalho criativo e a produção cultural a partir da perspectiva em rede. Segundo ele: “[é preciso] Discutir as redes de colaboração não só para constatar que elas existem, mas para tentar investigar que papel elas podem ter no futuro que está começando. Discutir também como neste novo mundo a gente vai premiar o trabalho criativo, reconhecer autorias, remunerar corretamente e dignamente o trabalho criativo sem precisar recorrer a conceitos do século XIX sobre direitos autorais, que são conceitos que cada vez mais se tornam soluções de força e não de consenso que estão completamente defasados no mundo atual e que cada vez mais têm a ver com as grandes corporações e não dos autores.” Ele é roteirista, jornalista e professor na Unisinos e na UFRGS. É sócio-diretor da Casa de Cinema de Porto Alegre e tem uma vasta lista filmes sob sua montagem.
Marque na sua agenda, a partir do dia 15, esses temas serão a pauta de Porto Alegre e do cyberespaço.
21 Set 2007 Fabricio [Fu-Xu] 0 comments



