Archive for Setembro, 2007

Debates

A Tecnologia não é neutra

 

A primeira mesa do Seminário “Além das Redes de Colaboração” em Porto Alegre trará o tema “Politizando as Tecnologias: como as redes reconfiguram a sociedade, a educação e a cultura?”. Será um questionamento as transformações da sociedade pós-industrial, onde novos elementos convergem determinâncias no campo da identidade, da comunicação, da educação, da cultura. Um questionamento também a este período onde a centralização e a monopolização adquirem novas formas e novos patamares: códigos, fórmulas, dados, idéias…

Esta sociedade, também categorizada como “sociedade da informação”, experimenta a instantaneidade e o impacto da midiatização, da velocidade em que as iniciativas podem tomar o globo, e da efemeridade que elas podem levar consigo. Nesse sentido é que o debate sobre as novas tecnologias tem um papel fundamental, afinal, por trás de todo o aparato técnico, das linguagens, das plataformas técnicas, há uma ideologia, uma visão de mundo.

Após a década de 80, a revolução da microinformática impulsionou outra revolução, a da comunicação. A internet permitiu que milhares de pontos espalhados no mundo possam se encontrar com a mesma facilidade que se escolhe um canal no televisor. Assim, os softwares, os protocolos de rede, as interfaces adquiriram uma especificidade intrínseca.

A Sociedade em Rede, definida pelo sociólogo Manuel Castells se configurou a partir da década de 60, oriunda dos campus universitários norte-americanos na formatação da internet, mas só tomou forma na medida em que se pode materializar a perspectiva da troca horizontal, do compartilhamento entre pares na rede.

Mas um campo árduo de disputa se estabelece na medida que grandes monopólios do conhecimento tentam capturar esta nova esfera colaborativa. Corporações de software proprietário patenteiam idéias, na forma de códigos de programação. Gerenciadores de direitos digitais (DRM) determinam a forma como as pessoas acessam os conteúdos. A pedagogia estabelecida privilegia a competição em detrimento do compartilhamento.

É esta a pauta que vai povoar as discussões no dia 15, no Salão Nobre da Faculdade de Direito na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Uma tentativa de elucidar a falsa neutralidade técnica, evidenciar a ética hacker na construção do cyberespaço, enfim, politizar as novas tecnologias.

Para isso, fará parte dos debates Imre Simon, professor do Departamento de Ciência da Computação do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo. Segundo ele “estamos vivendo uma transição onde as práticas industriais da Economia da Informação têm que se adaptar para uma convivência com as práticas emergentes de uma Economia Interconectada da Informação. Esta transição, liderada pelo Movimento de Software Livre, está afetando algumas das mais salientes práticas do mundo capitalista. Um conceito central para a força das novas práticas produtivas é a pujança de um conceito que apareceu muito pouco até recentemente: grandes quantidades de informação depositadas em commons de onde podem ser retiradas ou onde podem ser reinseridas, após modificações, de uma forma não rival e com regras abertas, acessíveis e transparentes para todos os interessados.”

Também estará presente Nelson Pretto, Físico, Mestre em Educação e Doutor em Ciências da Comunicação e um dos curadores do projeto. É professor adjunto da Universidade Federal da Bahia, consultor ad hoc de diversas revistas e instituições entre os quais a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia, Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, do Centro de Estudos em Educação e Sociedade e da Associação Nacional de Pós Graduação e Pesquisa em Educação.

Outro debatedor será Alex Primo, professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da UFRGS. Possui mestrado em Jornalismo (Ball University) e doutorado em Informática na Educação (UFRGS). Sua tese de doutorado foi premiada pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) e pela Sociedade Brasileira de Infomática na Educação (SBIE). Foi secretário da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação - Compós (2005-2007) e editor dos periódicos e-compós e Intexto. Publicou o livro “Interação Mediada por Computador: comunicação, cibercultura, cognição”. Atualmente pesquisa escrita colaborativa de hipertextos e conversações online. Coordena o Laboratório de Interação Mediada por Computador (LIMC): http://www.ufrgs.br/limc

Completando a mesa, Giba Assis Brasil, também um dos curadores do projeto, discutindo o trabalho criativo e a produção cultural a partir da perspectiva em rede. Segundo ele: “[é preciso] Discutir as redes de colaboração não só para constatar que elas existem, mas para tentar investigar que papel elas podem ter no futuro que está começando. Discutir também como neste novo mundo a gente vai premiar o trabalho criativo, reconhecer autorias, remunerar corretamente e dignamente o trabalho criativo sem precisar recorrer a conceitos do século XIX sobre direitos autorais, que são conceitos que cada vez mais se tornam soluções de força e não de consenso que estão completamente defasados no mundo atual e que cada vez mais têm a ver com as grandes corporações e não dos autores.” Ele é roteirista, jornalista e professor na Unisinos e na UFRGS. É sócio-diretor da Casa de Cinema de Porto Alegre e tem uma vasta lista filmes sob sua montagem.

Marque na sua agenda, a partir do dia 15, esses temas serão a pauta de Porto Alegre e do cyberespaço.

 

 

Apresentação, Debates

Tecendo a teia da colaboração.

Este blog será o espaço de troca de idéia e impressões antes, durante e após os debates presenciais. Farão aqui seus comentários desde os próprios debatedores, até ativistas, hackers, blogueiros, etc. Temas serão justapostos, idéias serão contrapostas. Enfim, queremos criar um espaço público de discussão sobre as tecnologias do poder.

Apresentação

Como iremos “Além das Redes de Colaboração”?

O Ciclo “Além das Redes de Colaboração: diversidade cultural e as tecnologias do poder” tratará dos conflitos entre as formas emancipadas que surgiram na sociedade e puderam proliferar nas redes digitais, em uma economia crescentemente baseada em bens imateriais e intangíveis.

O poder, a cultura, a educação e as formas de distribuição de riqueza serão observadas por ativistas e pesquisadores dos fenômenos contemporâneos. A impossibilidade do poder existir longe das tecnologias exige de todos uma mudança no olhar sobre as novas dependências, sobre o que está em jogo nas redes de informação. Por isso, as tecnologias da informação e da comunicação serão destacadas e avaliadas em suas dimensões mais importantes. As explicações nascidas da matriz do pensamento único, que procura esconder suas determinações histórico-sociais sob o discurso de uma racionalidade neutra, serão confrontadas com aquelas que pretendem dar transparência aos processos e politizar o debate sobre tais dimensões tecnológicas e sobre as históricas relações entre a ciência, o capital e o poder.

Os embates contemporâneos inicialmente apontados trazem para o primeiro plano as dúvidas sobre as possibilidades de emancipação em um cenário de enrijecimento da propriedade sobre as idéias, de controle biopolítico das formas básicas de viver e nascer, de cerceamento da diversidade cultural pelo império das formas mercantis sobre a emergente e, ao mesmo tempo tradicional, economia da dádiva.
Redes ponto-a-ponto (P2P) não poderão existir se o compartilhamento for criminalizado na rede. Sem estas redes não poderemos produzir códigos e softwares de código-fonte aberto com a velocidade necessária e exigida em uma sociedade desterritorializada. O cinema digital não poderá se interiorizar (abrir o número de salas no interior) se não puderem trabalhar com os protocolos de compartilhamento por arquivos indexados (por exemplo, BitTorrent). Os ativistas da metarreciclagem serão impedidos de criar webTVs, novas soluções de voz sobre IP serão cerceadas se continuarem técnicas de “traffic shaping incólumes” de legislação, nuvens de conexão abertas serão bloqueadas se o novo protocolo básico da internet proibir o anonimato.

No ciclo “Além das Redes”, os debates esclarecerão que a tradicional indústria cultural, os Leviatãs privados da cultura e do copyright, aliados aos gigantes das telecomunicações não querem o P2P, o código aberto, o compartilhamento, os arquivos indexados e o anonimato na rede, porque essas práticas sócio-técnicas dificultam e desmancham suas formas de concentrar riqueza e poder. Todavia, tais discussões até agora pertencem fundamentalmente aos cadernos de informática e somente vez ou outra aparecem nos suplementos de cultura. É preciso politizar este debate, pois o seu resultado terá grande impacto social, cultural e político. É necessário fazer emergir a esfera pública conectada.

O tema da TV Digital, o patenteamento de códigos genéticos e o futuro das realidades alternativas estão incrivelmente relacionados. E esta relação passa pela idéia de liberdade, seja para produzir conteúdos, seja para acessar o conhecimento produzido, seja para apresentar-se como um ou vários avatares. Muitos já disseram que a cibercultura é a cultura da contemporaneidade e ela é uma cultura remix. As possibilidades de ampliação da criatividade serão tão maiores quanto mais rapidamente seja descriminalizada a recombinação, a remixagem e o sampleamento. É necessário discutir que na sociedade da informação, na era das redes, o conhecimento cresce mais rapidamente quanto mais for compartilhado, é necessário desnudar o instituto da propriedade sobre o que é comum. É preciso mostrar onde encontram-se as fontes de poder arraigadas nas aparentes ideologias do entretenimento e nas luminosas e singelas vitrines do mercado.

Para tornar público o que tem sido tratado majoritariamente como assunto de especialistas e técnicos, propomos um ciclo de debates sobre a “Biopolítica e Tecnologias: padrões contemporâneos de emancipação, propriedade, poder e controle”, que busque fazer as relações que não pertencem ao senso comum, mas que precisam propagar-se no cotidiano das discussões sociais. É preciso promover contextos comunicacionais em que possamos esclarecer uma série de conexões que antes eram vistas como tipicamente técnicas, no esforço de ampliarmos as competências comunicativas das sociedade com a finalidade de requalificar a esfera pública em uma era informacional, da cibercultura, da biopolítica, em uma sociedade em rede em conflito reconfigurante com a expansão de um capitalismo cognitivo.

Nosso ciclo faz a recombinação e a correlação entre coisas aparentemente distintas e distantes, mas incrivelmente intrínsecas. Mostramos que a razão instrumental não consegue ficar imune diante do intercâmbio comunicativo entre os nós das redes. Por isso, nosso ciclo quer efetivamente ir além das redes de colaboração e mostrar as possibilidades, a potencialidade e os riscos que as tecnologias do poder trazem para a diversidade cultural e para a emancipação das subjetividades. Nosso ciclo parte das seguintes perguntas:

  1. Como as redes reconfiguram a sociedade, a educação e a cultura?
  2. O que o software tem a ver com os transgênicos?
  3. O que códigos têm a ver com música, filmes, jogos e realidades alternativas?
  4. O que as telecomunicações e a TV digital têm a ver com o comum?
  5. O que a educação tem a ver com a autonomia política e tecnológica?
  6. O que o anonimato na rede tem a ver com a democracia e com a biopolítica?
  7. O que a tecno-arte e a cibercultura tem a ver com a estética da multidão?
  8. O que a convergência digital e a TV pública têm a ver com a diversidade cultural?

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