Como iremos “Além das Redes de Colaboração”?
O Ciclo “Além das Redes de Colaboração: diversidade cultural e as tecnologias do poder” tratará dos conflitos entre as formas emancipadas que surgiram na sociedade e puderam proliferar nas redes digitais, em uma economia crescentemente baseada em bens imateriais e intangíveis.
O poder, a cultura, a educação e as formas de distribuição de riqueza serão observadas por ativistas e pesquisadores dos fenômenos contemporâneos. A impossibilidade do poder existir longe das tecnologias exige de todos uma mudança no olhar sobre as novas dependências, sobre o que está em jogo nas redes de informação. Por isso, as tecnologias da informação e da comunicação serão destacadas e avaliadas em suas dimensões mais importantes. As explicações nascidas da matriz do pensamento único, que procura esconder suas determinações histórico-sociais sob o discurso de uma racionalidade neutra, serão confrontadas com aquelas que pretendem dar transparência aos processos e politizar o debate sobre tais dimensões tecnológicas e sobre as históricas relações entre a ciência, o capital e o poder.
Os embates contemporâneos inicialmente apontados trazem para o primeiro plano as dúvidas sobre as possibilidades de emancipação em um cenário de enrijecimento da propriedade sobre as idéias, de controle biopolítico das formas básicas de viver e nascer, de cerceamento da diversidade cultural pelo império das formas mercantis sobre a emergente e, ao mesmo tempo tradicional, economia da dádiva.
Redes ponto-a-ponto (P2P) não poderão existir se o compartilhamento for criminalizado na rede. Sem estas redes não poderemos produzir códigos e softwares de código-fonte aberto com a velocidade necessária e exigida em uma sociedade desterritorializada. O cinema digital não poderá se interiorizar (abrir o número de salas no interior) se não puderem trabalhar com os protocolos de compartilhamento por arquivos indexados (por exemplo, BitTorrent). Os ativistas da metarreciclagem serão impedidos de criar webTVs, novas soluções de voz sobre IP serão cerceadas se continuarem técnicas de “traffic shaping incólumes” de legislação, nuvens de conexão abertas serão bloqueadas se o novo protocolo básico da internet proibir o anonimato.
No ciclo “Além das Redes”, os debates esclarecerão que a tradicional indústria cultural, os Leviatãs privados da cultura e do copyright, aliados aos gigantes das telecomunicações não querem o P2P, o código aberto, o compartilhamento, os arquivos indexados e o anonimato na rede, porque essas práticas sócio-técnicas dificultam e desmancham suas formas de concentrar riqueza e poder. Todavia, tais discussões até agora pertencem fundamentalmente aos cadernos de informática e somente vez ou outra aparecem nos suplementos de cultura. É preciso politizar este debate, pois o seu resultado terá grande impacto social, cultural e político. É necessário fazer emergir a esfera pública conectada.
O tema da TV Digital, o patenteamento de códigos genéticos e o futuro das realidades alternativas estão incrivelmente relacionados. E esta relação passa pela idéia de liberdade, seja para produzir conteúdos, seja para acessar o conhecimento produzido, seja para apresentar-se como um ou vários avatares. Muitos já disseram que a cibercultura é a cultura da contemporaneidade e ela é uma cultura remix. As possibilidades de ampliação da criatividade serão tão maiores quanto mais rapidamente seja descriminalizada a recombinação, a remixagem e o sampleamento. É necessário discutir que na sociedade da informação, na era das redes, o conhecimento cresce mais rapidamente quanto mais for compartilhado, é necessário desnudar o instituto da propriedade sobre o que é comum. É preciso mostrar onde encontram-se as fontes de poder arraigadas nas aparentes ideologias do entretenimento e nas luminosas e singelas vitrines do mercado.
Para tornar público o que tem sido tratado majoritariamente como assunto de especialistas e técnicos, propomos um ciclo de debates sobre a “Biopolítica e Tecnologias: padrões contemporâneos de emancipação, propriedade, poder e controle”, que busque fazer as relações que não pertencem ao senso comum, mas que precisam propagar-se no cotidiano das discussões sociais. É preciso promover contextos comunicacionais em que possamos esclarecer uma série de conexões que antes eram vistas como tipicamente técnicas, no esforço de ampliarmos as competências comunicativas das sociedade com a finalidade de requalificar a esfera pública em uma era informacional, da cibercultura, da biopolítica, em uma sociedade em rede em conflito reconfigurante com a expansão de um capitalismo cognitivo.
Nosso ciclo faz a recombinação e a correlação entre coisas aparentemente distintas e distantes, mas incrivelmente intrínsecas. Mostramos que a razão instrumental não consegue ficar imune diante do intercâmbio comunicativo entre os nós das redes. Por isso, nosso ciclo quer efetivamente ir além das redes de colaboração e mostrar as possibilidades, a potencialidade e os riscos que as tecnologias do poder trazem para a diversidade cultural e para a emancipação das subjetividades. Nosso ciclo parte das seguintes perguntas:
- Como as redes reconfiguram a sociedade, a educação e a cultura?
- O que o software tem a ver com os transgênicos?
- O que códigos têm a ver com música, filmes, jogos e realidades alternativas?
- O que as telecomunicações e a TV digital têm a ver com o comum?
- O que a educação tem a ver com a autonomia política e tecnológica?
- O que o anonimato na rede tem a ver com a democracia e com a biopolítica?
- O que a tecno-arte e a cibercultura tem a ver com a estética da multidão?
- O que a convergência digital e a TV pública têm a ver com a diversidade cultural?
11 Set 2007 Admin



